Carta para mim mesma: como escrever uma para você

Pati GuedesPor Pati Guedes
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Vela acesa vista de cima com a frase 'O novo te chama pelo nome.' gravada na cera

Uma carta para você mesma é um texto escrito à mão, com começo, meio e despedida, endereçado a quem você é hoje ou a quem vai ser daqui a um tempo. Para escrever, basta escolher para quem vai a carta (a você de agora, do futuro ou do passado), reservar meia hora sem interrupção e responder com calma a duas ou três perguntas. Abaixo estão o passo a passo, perguntas para destravar e ideias do que fazer com a carta depois.

Por que escrever uma carta para você mesma?

Porque carta tem um jeito próprio de falar. Diário é registro; lista é tarefa; carta é conversa. Quando você escreve "querida eu", algo muda no tom: fica mais fácil ser gentil, dizer o que ninguém disse, reconhecer o que você atravessou.

Eu gosto de pensar que a carta é um jeito de se tratar como você trataria uma amiga querida. A maioria de nós sabe exatamente o que diria a uma amiga cansada, insegura ou feliz com uma conquista. Para nós mesmas, a voz costuma ser mais dura. A carta abre espaço para a outra voz.

Para quem vai a carta: hoje, futuro ou passado?

Cada destino pede uma escrita diferente:

  • Para você de hoje. É uma carta de reconhecimento: o que você está carregando, do que tem orgulho, do que precisa agora. Boa para fases de muita cobrança.
  • Para você do futuro. Você escreve hoje e guarda para abrir daqui a seis meses, um ano, no próximo aniversário. Fala de como está agora, do que espera, das perguntas que ainda não têm resposta. Abrir depois é como receber notícia de uma velha conhecida.
  • Para você do passado. Você escreve para a menina, a adolescente ou a mulher de alguns anos atrás. Costuma ser uma carta de perdão e de cuidado: o que você gostaria que ela soubesse.

Não precisa escolher um para sempre. Muita gente começa pela de hoje, que é a mais leve, e depois experimenta as outras.

Como escrever uma carta para você mesma, passo a passo

  1. Separe um tempo e um lugar. Meia hora, porta fechada, celular longe. Se gostar, acenda uma vela ou um incenso, sem sair de perto e longe de cortinas, crianças e pets.
  2. Escolha o papel. Folha bonita, caderno, verso de um papel qualquer. Eu escrevo à mão, porque a letra tem o ritmo da gente, e reler a própria letra anos depois é outra experiência. Mas digitar também vale.
  3. Comece com a data e um cumprimento. "Querida eu", "Oi, Ana de 2027", o seu apelido de infância. O cumprimento define o tom.
  4. Conte onde você está. Onde mora, o que faz nos dias, quem está por perto, como anda o corpo. Parece óbvio hoje, mas é exatamente o que você vai esquecer.
  5. Responda a duas ou três perguntas (há uma lista logo abaixo). Não tente responder todas.
  6. Diga algo gentil. Pelo menos uma frase de reconhecimento: algo que você fez bem, que atravessou, que está tentando.
  7. Despeça-se. "Com carinho", "até daqui a um ano", "estou torcendo por você". E assine.
  8. Não releia para corrigir. A carta não é redação. Erro de português e frase torta fazem parte.

Perguntas para começar a carta

Escolha as que puxarem alguma coisa:

  • O que está ocupando mais espaço na minha cabeça agora?
  • Do que eu tenho orgulho neste ano, mesmo que ninguém tenha visto?
  • O que eu estou carregando que não é meu?
  • O que eu quero que continue igual quando eu abrir esta carta?
  • O que eu espero que tenha mudado?
  • Qual medo eu gostaria de ver menor daqui a um tempo?
  • O que eu diria para mim se eu fosse minha melhor amiga?
  • Do que eu preciso pedir desculpas para mim mesma?
  • O que me fez rir nas últimas semanas?

Se travar, escreva "não sei o que escrever" e continue a partir daí. Quase sempre a frase seguinte aparece. Para mais exercícios nessa linha, veja o texto sobre escrita terapêutica.

O que fazer com a carta depois?

Depende do destino que você escolheu:

  • Carta para hoje: releia em voz alta, devagar, como se outra pessoa estivesse lendo para você. Guarde num lugar onde dá para reencontrar num dia ruim.
  • Carta para o futuro: feche num envelope, escreva na frente "abrir em…" e coloque a data. Guarde junto de documentos ou numa caixa de lembranças. Anote a data na agenda do celular, porque é fácil esquecer onde guardou. Um bom marco é o aniversário, a virada do ano ou uma lua nova, que na tradição simboliza começo.
  • Carta para o passado: algumas pessoas guardam, outras preferem rasgar ou queimar como gesto de encerramento. Se for queimar, faça numa superfície que não pega fogo, em lugar ventilado, com água por perto.

Quando abrir uma carta antiga, leia sem julgamento. Você vai encontrar alguém que sabia menos do que você sabe hoje, e que mesmo assim fez o que pôde.

E quando a carta mexe demais?

Escrever pode trazer à tona coisas guardadas há muito tempo. Se acontecer, pare, respire, beba um copo d'água e volte outro dia. A carta é uma prática de cuidado e não substitui acompanhamento psicológico; se algum tema pesar muito, vale procurar uma profissional para conversar.

Uma carta que chega todo mês

Todo mês, dentro da caixa da Arkana, vai uma carta minha. É a parte da caixa que eu escrevo pensando em quem vai abrir, e é por isso que eu acredito tanto no poder de uma carta: ela chega devagar, se lê com calma e pode ser guardada. Junto vem o Caderno de Intenção do capítulo, um bom lugar para responder com a sua própria carta. Se quiser receber, dá para começar com uma caixa só, para testar, sem nada cobrado depois.

Perguntas frequentes

O que escrever numa carta para mim mesma?

Comece contando onde você está na vida hoje, depois responda a duas ou três perguntas que te toquem, como "do que eu tenho orgulho" ou "o que eu espero que tenha mudado". Feche com uma frase gentil e uma despedida. Não precisa ser longa: uma página já é uma carta.

Com quanto tempo de antecedência escrever uma carta para o futuro?

Um ano é o prazo mais comum, porque dá tempo de muita coisa mudar e cabe numa data fácil de lembrar, como o aniversário. Seis meses também funcionam bem. Prazos muito longos são bonitos, mas aumentam a chance de a carta se perder.

Como escrever uma carta de amor próprio?

Escreva como escreveria para alguém que você ama: diga o que admira, agradeça pelo que essa pessoa aguentou, perdoe um erro. A diferença é que essa pessoa é você. Se a voz endurecer no meio, pare e pergunte o que você diria a uma amiga na mesma situação.

Preciso mostrar a carta para alguém?

Não. A carta é sua e pode ficar só com você. Algumas mulheres gostam de ler em voz alta para uma pessoa de confiança, mas é escolha, não parte da prática.

Para ler depois

Carta para mim mesma: como escrever uma para você · Arkana